terça-feira, agosto 21, 2007

Reflexão - Teledependentes



São exactamente 21.28 sento-me confortavelmente numa cadeira e tento transpor para o papel aquele tema que ando a digerir ao longo dos últimos dias. De repente ouço um bip anunciando uma mensagem no telemóvel, tento prosseguir mas, algo me impede de o fazer tenho mesmo que ver o que me mandaram, pode ser alguém a querer desabafar, pode ser algo importante ou pode até ser grande banalidade mas, a curiosidade e o hábito obriga-me a obedecer a este que é um dos maiores vícios da maior parte das pessoas. E tenho para mim que as desvantagens de ter um telemóvel caminham muito a par dos benefícios, o telemóvel aproximou as pessoas, melhorou em muito a nossa qualidade de vida, facilitou a vida a muita gente mas, também, tirou-nos algo saudável e essencial a PRIVACIDADE, os pais de meia em meia hora ligam para saber o que estás a fazer, com quem, porquê e a avisar que as 21.00 é hora de janta, como se já não soubéssemos. Os namorados (as) tornaram-se ainda mais possessivos volta e meia mandam eles mensagens: “Onde estás?” ao que respondes “Na praia” - “Qual praia? Com quem? A que propósito? Porque não me disseste? Tens algo a esconder?” – “Não, estou sozinha, estava a precisar de pensar, tenho tido problemas familiares” – “E porque não me ligaste? Eu vou aí.” – “Desculpa mas, eu preciso mesmo de estar sozinha.” – “Ai é??? É assim?? Quem é o gajo?? Eu que sonhe que tu andas a vadiar com outros mens que tu nem sabes que te faço”, “Não lido com ameaças, ficamos por aqui.” E a conversa prossegue até à discussão, misturada com afastamento e a futura reaproximação. Antigamente não era assim, não ouvíamos o bip a toda a hora, não contávamos tantas ninharias por mensagem, não víamos o bicho às 14.00 às 15.00 às 16.00 às 16.15, 16.20, 16.30… na esperança que aquela (e) que tanto nós queremos nos envie a tal mensagem que tanto esperamos. Perdemos mais tempo a olhar para ele do que a fazer algo bem mais interessante… Quem tem telemóvel desde cedo desconhece o prazer de sair e não ter o compromisso de ligar a ninguém. Liga-se porque faz anos, porque está triste, porque lhe morreu o gato, porque levou um fora, porque quer saber qual o autocarro que se apanha para tal sitio e a que horas passa, qual a cor que melhor assenta para ter um encontro com o Zé da esquina, e arranjarem vida, não? Tornamo-nos teledependentes é o chamado “always available”. Então e nós? Sabe tão bem estar só em determinadas alturas, pensar na vida, pensar no que realmente é importante, no que nos torna mais felizes e menos dependentes. Não há nada como a liberdade e eu sei que podemos fazer tudo isto com o telemóvel mas, não deixa de ser uma liberdade condicionada por aqueles que assim o permitem. Ah com tanta mensagem pelo meio e um texto para escrever já são 22.30

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